Volatil


Se o meu Corsa falasse

 

- Era o muro ou o caminhão.

Foi o muro. E nenhuma outra vítima além do respectivo muro e do pobre carro em si.

Assim terminou a trajetória daquele lindo Corsa prata (Vivi-Móvel para os mais chegados): em perda total (PT no jargão dos agentes de seguro e dos causadores de acidentes).

Foram muitas aventuras a bordo daquele carro.

O acidente mais surreal do mundo, por exemplo. Era um dia de verão, e eu colocava o carro na garagem na volta do trabalho, prestando a maior atenção para não bater - de novo - o pára-choque com tudo na parede, ao mesmo tempo em que usava o máximo da minha coordenação para não deixar o carro morrer na calçada inclinada. Pois bem, o máximo da minha coordenação perdeu para a minha falta de experiência, que fez com que eu ignorasse a largura da garagem e batesse no portão.

Eu estava sem o cinto de segurança. Enquanto meu pai, de bermuda e chinelo fazia ginástica pra desentortar o portão que não fechava, eu percebi o pára-brisa trincado. “Que estranho, não caiu nada em cima do carro.” Então eu olhei bem de perto e vi umas gotas no vidro. Meu suor. Sim, eu quebrei o pára-brisa com a minha testa e não senti nada! Desci do carro com cara de boba e fui aloprada até não poder mais e por um bom tempo, mesmo explicando que a minha façanha só foi possível graças ao calor que dilatou o vidro. Não adiantou, e a justificativa oficial para o fenômeno ficou sendo a dureza da minha cabeça.

Esse foi o mais memorável. Mas ainda teve a fina que eu tirei do ônibus e que fez o espelho do passageiro pular no colo da minha mãe, e o Gol que acertou a traseira do carro em plena Radial Leste às 10 e meia da noite. Apesar do conserto, depois da batida o porta-malas nunca mais foi o mesmo, e de vez em quando abria do nada, me obrigando a encostar para fechá-lo nos piores momentos.

Mas o mais legal foi ter aprendido a enfrentar a Radial, porque a partir de então eu adquiri confiança pra pilotar o Vivi-Móvel rumo às baladas. Liberdade!! Liberdade de voltar bem cedo pra casa (de manhã) e de andar sem rumo mesmo que involuntariamente.

Se o meu Corsa falasse certamente faria piada das tantas vezes em que parei num posto de gasolina ou num ponto de táxi pra pedir informação na mesma noite, contaria o caso do dia em que eu e a Paula chegamos na Vila Olímpia depois de rodarmos por horas e cairmos na Imigrantes, ou discorreria sobre a festa à fantasia em que as meninas trocaram de roupa no carro e eu parei no mesmo posto e falei com o mesmo frentista pedindo informação na ida e na volta. Essa foi a primeira vez que rodei na Marginal, e passei uma três pontes até concluir que a pista se bifurcava pra não bater nos pilares, e não pra me desviar do meu caminho reto.

É, foram muitas aventuras. Vivi-Móvel teve muita paciência comigo e era cheio de personalidade, a ponto de o meu pai (o verdadeiro dono) simular um ciuminho quando a minha avó se referia a ele (o Corsa) como “o carro da Vivian”.

Naquela quinta-feira fatídica o carro já não era mais só meu. E antes que alguém pense maldosamente em questionar a minha habilidade ao volante, quero esclarecer que foi o meu irmão (o outro dono não-oficial) o responsável pela PT. 

Acidentes acontecem, eu sei. Mas eu gostava tanto daquele carro! E o que restou dele além das travas elétricas, do radinho tosco e de todas as belas recordações? Nada. Isso mesmo: nada!

Nada... que um 2005 com direção hidráulica e CD player já não tenha resolvido!



Escrito por Escrito por Vivian Makia às 15h27
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