Volatil


Sobre peixes e novilhos (continuação)

 

Eu quero entender tudo isso porque eu também sofro desse mal. Não sou bem uma novilha,  sou mais como um peixinho que vive saindo pelos buracos da rede mas não resiste a morder a isca.

Qual é o problema de estar apaixonado? Será o medo de se sentir idiota? Talvez dar uma de durão seja realmente idiota. Afinal, quem é que nunca passou o(s) dia(s) suspirando e sonhando por causa de alguém?

Eu acho que o medo é reflexo da ânsia por manter tudo sob controle. Porém, não adianta nada. Ninguém explica a razão para se interessar por alguém, mesmo quando a justificativa vem fácil. Não existe explicação porque não é racional. O interesse rola porque rola e pronto, e isso não cabe em nenhum argumento racional.

É bom estar apaixonado. Sim, você se sente um idiota, mas é legal sentir aquele calorzinho gostoso quando você chega perto dele ou dela, ou quando vocês finalmente se cruzam e daí surge uma oportunidade de jogar uns verdes e pôr em prática todas aquelas técnicas altamente recomendáveis para os outros e difíceis de implementar a favor de causas próprias.

Muita gente mergulha de cabeça. E sofre. E jura nunca mais cometer os mesmos “erros”. Mas na primeira oportunidade faz tudo quase igual.

Os novilhos e os peixes observam. Resistem bravamente, em silêncio. Dissecam o caso, analisam a situação e após os pensamentos martelarem na cabeça por dias e dias, finalmente verbalizam. E quando isso acontece, nunca usam palavras como gostar ou qualquer uma da família da paixão. “eu estou pagando um pau pra Fulana.” -  é o que dizem; “que droga, eu não paro de pensar nele” - é o que pensam; e “não, eu não estou gostando dela!” – é o que repetem mentalmente, como um mantra cuja eficácia é nula, embora eles acreditem que funciona.

E assim prossegue a tentativa, essa sim idiota, de fugir de uma coisa que já está lá dentro.

Essa aparente desencanação é puro medo. Medo de se deixar levar e de se machucar, de ferir o ego.

Mas uma vez apaixonado, você já foi levado. E quanto ao ego, eis uma questão delicada: se você ignorá-lo, perde a dignidade e adeus senso de ridículo; se escutá-lo demais, você se coloca num pedestal, onde ninguém pode te atingir...e nem te enxergar.

Não vale a pena morrer por ninguém. Mas também não vale a pena fingir que você não sente nada quando você se importa e muito.

Então, qual a solução para o dilema? Não sei. Talvez seja prestar atenção nos próprios sentimentos e respeitá-los como são. O coração e o cérebro podem trabalhar em coordenação, mas às vezes atuam em espaços próprios; quando essa é a situação, não adianta tentar fazer com que um prevaleça sobre o outro, porque eles agirão sem dar ouvidos ao proprietário.

Deixo a questão para ser pensada.

Enquanto isso, no mundo animal, o peixe vai pensar nas melhores formas de amansar o novilho.



Escrito por Escrito por Vivian Makia às 17h19
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