Quatro Anos de Crise
Após a semana do saco-cheio, eis que vou à faculdade na segunda-feira. Parecia que eu havia sido cuspida pra fora de uma nave espacial após dias de abdução.
Conversando com a galera da minha classe, constatei que eu não sou a única com a sensação de ter deixado várias coisas passarem batido. Ou seja, parece que você estudou, estudou, mas no fim não aprendeu na mesma proporção.
Vai ver essa é a crise do terceiro ano. Sim, porque para cada ano existe uma.
Perguntas que ecoam na cabeça dos bixos: “O que eu estou fazendo aqui? Que lugar é esse? Quem são essas pessoas?”. Eles estão lá por opção, sonhavam com aquele curso, sabiam que as coisas passariam a ser diferentes, mas é inevitável esse choque com a realidade. É legal conhecer tanta gente tão diferente e ao mesmo tempo tão parecida, mas todo dia você se pergunta o que está fazendo ali. E aquela perguntinha simples que a sua tia faz - “tá gostando do curso?” - vira uma incômoda questão existencial.
No segundo ano você sabe o que está fazendo (está estudando, oras!), e já gosta do ambiente e das pessoas. Ou será que você apenas arranjou umas respostas certas e se acostumou? Já tem assiduidade nas baladas e nas idas ao bar, e isso é muito bom. Pelo menos dá pra se abstrair um pouco daquelas incertezas chatas... mas começa a rolar o peso na consciência por causa daqueles textos não lidos.
No terceiro ano vira hábito comprar pilhas de cópias mais por desencargo do que por outro motivo. Muitas vezes já tá rolando um estágio e daí você se perdoa um pouco por não estudar tanto; porém vem a sensação de que você sabe pouco pra quem está na reta final. Mas nem tudo é crise! Essa é a época em que as escolhas vão sendo feitas e cada um começa a tomar o seu rumo. E, diferente do que foi o stress do vestibular, o que acontece são direcionamentos mais naturais, baseados na experiência que o ambiente e as pessoas que você conheceu te proporcionam. Talvez seja a época em que mais nos envolvemos com muitas coisas ao mesmo tempo e fazemos muita acrobacia para conciliá-las ao máximo, pois tudo é oportunidade.
Dizem que no quarto ano os alunos mandam só o corpo pra faculdade, porque a cabeça está bem longe. Não conte com eles pra ganhar eleição pro centro acadêmico, ou pra participarem de assembléias. Teorias underground dizem que no último ano as meninas hetero adotam um comportamento que visa maior proximidade com suas colegas – segundo as mesmas fontes, o mesmo não aconteceria com os rapazes, que já teriam passado por metamorfose semelhante nos tempos de bixo. Porém não tenho visto muito disso (embora essas idéias pudessem explicar muita coisa).
Não contem comigo pra tirar essas teorias da categoria underground. E quanto à história do corpo presente-cabeça ausente, pra mim isso rola desde o primeiro ano (de vida).
Portanto, enquanto alguns trocam uma crise pela outra, outros vão acumulando uma a cada ano. O meu consolo é que mesmo quem estuda pra caramba sofre com isso. E vai ver as coisas são desse jeito mesmo. No fim cada um tem a sua maneira de aprender e buscar seus caminhos. Essa é uma das melhores coisas da faculdade: uma certa liberdade de exercer essas capacidades particulares e traçar escolhas a partir disso. Sim, isso existe!
A faculdade é uma época única. É um tempo especial, pois os compromissos são poucos e o despojamento é grande. E quando acabar, as coisas nunca mais serão assim... e essa consciência vai ficando cada vez mais viva conforme o tempo passa.
Saudades antecipadas? Pode ser. Vai ver essa é a crise do fim do terceiro ano.
Escrito por Escrito por Vivian Makia às 18h17
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