Rua Sinanduva, 241
Faz um tempinho que não vou à casa da minha avó (neta desnaturada). Mas sempre que estou lá alguma coisa me acontece.
Desde criança, nas tardes perfumadas de café e bolinho de chuva, ou nas noites de partidas intermináveis de buraco e cabanas atrás do sofá, esse sentimento me atinge. Lembranças de coisas muito anteriores a mim, mas que sempre estiveram muito vivas e presentes.
É como se no sobrado vivessem muitos fantasmas. A minha mãe penteando seus longos cabelos; meu tio escorregando no corrimão da escada do quintal; meu avô sagitariano; os olhos da minha bisavó magrinha; meu tio-avô assobiando e trazendo o jornal debaixo do braço; a minha avó pedalando a máquina de costura. Fantasmas de pessoas que não estão mais aqui, ou daqueles que vivem com saúde e em paz. Nenhum outro lugar além da casa com o grande pé de camélias no jardim me traz tanta nostalgia - principalmente daquilo que eu nunca vivi.
Os fantasmas não assombram, apenas me fazem companhia. E eu também sou um deles. Eu sou a menininha que roubava as colheres de café da gaveta e adorava os lençóis cor-de-rosa da cama da vovó. Sou a criança que subia no muro pra ver a procissão da Páscoa e que atravessava a rua de mãos dadas com o tio-vô pra comprar pipoca. Eu sou a neta que escuta as histórias das mulheres cientes das duras responsabilidades nos tempos de muita luta e pouca conversa. Eu me vejo envolvida nessa estranha e familiar atmosfera cada vez que a minha querida avó abre o portão e me recebe no mais caloroso dos abraços.
Eu sou a menina que cresceu em meio às lembranças e que talvez vá passar a vida toda tentando decifrar a magia do tempo e a persistência da memória.
Escrito por Escrito por Vivian Makia às 23h29
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