Volatil


Abstração (palavra de ordem)

 

Hoje voltei pra casa caminhando pela sombra. E no lugar da prudência, experimentei a cumplicidade da calçada deserta. Não ouvi os meus próprios passos e tampouco queria escutar meus pensamentos em digestão. Eu era apenas a minha sombra, livre e sozinha.

 

Às vezes eu gostaria de ter o dom da neutralidade. Maldito o dia em que enxerguei as coisas como elas são! Não me lembro da primeira vez em que olhei à minha volta e descobri que o lado escuro não é privilégio da lua... Maldito o dia em que abri os olhos e passei a ver as coisas de maneira inteligível.

 

O mundo definitivamente não é cor-de-rosa. A vida contém todas as cores, e cada matiz se revela de modo particular, ofuscando a vista na exuberância florescente ou desafiando o tato na ausência da luz. O mundo não é apenas cor-de-rosa; é muito negro também. E a vida é repleta de surpresas boas e desagradáveis, e sobretudo incontroláveis.

 

Maldito o dia em que deixei de ser ignorante! Mas não sei simplesmente respirar fundo e fechar os olhos - não posso me furtar de todos os outros sentidos. A tal da consciência é um fardo pesado, que atribui brilho através da violência da lapidação. É um caminho sem volta.

 

Essa má conjunção astral que tem pairado sobre os últimos dias pode me fazer exagerada e divagante, mas, por incrível que pareça, não abala meu velho otimismo. A melancolia me visita de vez em quando e me deixa sensível e dramática. E, como toda visita, uma hora ela vai embora - para virar sombra e me abordar na próxima esquina.

 



Escrito por Escrito por Vivian Makia às 23h54
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