Volatil


Miopia!

Do flerte ao bote, tudo pode acontecer...

 

De longe ele parecia tão desencanado! Blasé e charmoso, andava pra lá e pra cá no ritmo da batida que vinha do palco.

“Pessoa interessante. Mas ele sequer olha pra mim! Ah, então deixa pra lá.”

Mesmo assim ela prestava atenção no cara, que continuou ignorando sua presença.

Pouco antes de ir embora, a mocinha não resistiu: se encheu de coragem, arranjou uma desculpa esfarrapada e foi conversar com o rapaz.

De perto, o ar blasé deu lugar a uma doçura que escondia uma habilidade incrível de desarmá-la de seu cinismo habitual.

 

As três conversavam num canto daquele lugar lotado, tentando desconsiderar a mesmice do público e do ambiente.

Em meio à confusão, ele passa perto do grupo.

- Que bonito! Vocês viram? Ele tem cara de indiano!

- Onde?

- Passou pra lá. Vem voltando agora, presta atenção.

Ele passa novamente por elas e lança um olhar 43.

- Ai, que vergonha, bem na hora em que eu olhei, ele me olhou também.

Não demorou muito o cara puxou uma cadeira e começou a falar do preço do seu par de tênis, do trabalho na empresa européia, da sua vida de atleta urbano, dos rachas e de suas viagens (inclusive sobre a vez em que foi à Índia).

De longe ele parecia bonito e interessante. De perto se revelou raso e desarticulado. Um menininho perdido. Mesmo assim uma das três o acompanhou até a pista.

 

Todos os dias eles estavam no mesmo lugar. A mesma fila, os mesmos corredores, as salas vizinhas, conhecidos comuns.

Um sequer sabia o nome do outro. Até que um dia ele olhou para ela com um sorriso simpático e absolutamente desprovido de segundas intenções. No mesmo dia ela aprendeu o nome dele, e as coisas nunca mais foram as mesmas.

De longe ele era só mais um na multidão da rotina. De perto ele era uma incógnita, mas era misteriosamente inteligível pra ela. E ela chegou tão perto a ponto de não poder se aproximar mais.



Escrito por Vivian Makia às 02h05
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Foram apresentados naquele dia. Ele se aproximou dela enquanto as outras pessoas se arranjavam pelos cantos.

Os dois curtiram juntos a música e a escuridão. E no fim da noite a satisfação era maior do que o cheiro de encrenca no ar.

Logo ela se veria numa das pontas de um suposto triângulo amoroso (e na ponta de um iceberg). A madrugada foi longa, a manhã se arrastou barulhenta e o fim da tarde foi um alívio. Sucederam-se o arrependimento, o mal-estar e o silêncio. Mas no final cada um dos três se resolveu à sua maneira, nos rumos das paranóias ou da sensatez.

De longe ele era o mocinho atencioso que surgira no momento certo. De perto ele se revelou muito desinteressante e limitado (chega a ser inacreditável).

Ela, por sua vez, se tornou cada vez mais inteligente e fascinante aos olhos dele – e ela é espirituosa o suficiente para rir do aspecto trágico da situação.

 

Do nada ele surgiu e começou a conversar com ela. Falaram sobre mil coisas, como se fossem velhos conhecidos.

Ele ligou no dia seguinte aos primeiros beijos. Encontraram-se outras vezes e tudo parecia muito bom, mas era muito rápido. O pedido de namoro era natural pra ele e a velocidade dos acontecimentos o fez dissonante para ela, que o recusou.

De longe ela era atraente e encantadora. Quando ele chegou perto, ela escapou-lhe por entre os dedos. Ele nunca chegara realmente ao seu coração e ela não vai lhe dar a oportunidade.

Tamanha crueldade dói no coração que ele não alcança e que ela não compreende.



Escrito por Vivian Makia às 02h05
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