Pessimistas e otimistas são simplistas. Se a realidade se traduzisse em todas as cores que existem, eles seriam aqueles que enxergam tonalidades, e não as cores. Eles vêem o claro e o escuro, ou seja, não contemplam as nuances. Nesse sentido, os otimistas e os pessimistas seriam duas faces da mesma moeda que reduz a complexidade a apenas dois lados.
Pessimismo e otimismo possuem a mesma tendência a se distanciarem da realidade. Ambos são formas de defesa.
O pessimista é prudente; em algum momento ele conheceu o lado negro e isso lhe causou impacto. Entretanto, ele tende seriamente a transformar sua experiência em uma espécie de trauma, uma ferida que nunca fecha. Na verdade a ferida dói pra lembrá-lo de não abrir outras - ele aprendeu com a dor, mas não consegue se desprender dela. Em nome da prudência, vai perdendo a capacidade de se submeter às surpresas da vida, justamente por ser defensivo, sempre esperando o pior. Seus olhos se acostumam à escuridão, e quando a luz se acende, ele se assusta e recua antes que a retina se adapte e possa apreciar as cores.
O otimista parece viver anestesiado e assim aprende a contornar o lado negro. Ele teme a escuridão e não desenvolve o tato. Sai à luz do dia e adormece ao raiar do sol, impreterivelmente. É superficial por ter medo de mergulhar e não voltar à tona. Porém, ao contrário do pessimista, sabe identificar as alegrias pequenas, e de suas tramas fará o tapete sob o qual varrerá suas angústias. Assim como os pessimistas, os otimistas se baseiam em experiências, mas guardam somente o que é belo e fingem que o ruim nunca existiu e jamais os afetará.
Vai chegar o momento em que o otimista tropeçará no Everest sob o tapete. Ignorou os problemas que cresceram debaixo de seu nariz, e agora? O pessimista por sua vez não se liberta da dor que o aprisiona e que, como resgate, exige um grande milagre. Não servem as alegrias pequenas, afinal elas são muito pequenas em relação à sua dor incessante. Os dois são excessivamente defensivos e pouco pró-ativos: um só foge, e o outro não sai do lugar.
Ambos são medrosos, e isso é perfeitamente compreensível. Para conhecer as cores da vida é preciso se submeter, mas é evidente que não se pode viver desprovido da experiência e seu efeito construtivo. Mas a construção está sujeita às condições naturais e assim o pessimista resolve morar no abrigo subterrâneo, pois é o lugar mais seguro que existe. O otimista, por sua vez, prefere habitar somente climas agradáveis e se torna eterno turista. O pessimista possui a fortaleza, de onde não sai e onde poucos entram. O otimista não finca alicerces, pois no primeiro relampejar ele levantará acampamento com destino a outro lugar ensolarado.
Nenhum dos dois pode evitar o vazio que cresce a despeito de suas estratégias: conscientemente ou não, o pessimista sente falta dos outros, e o otimista de si mesmo. O pessimista precisa aprender a fechar os olhos e se deixar levar; o otimista precisa abrir os olhos e assumir posições. Assim poderão ultrapassar os limites do claro-escuro para enxergar as nuances. O vazio, por sua vez, é inerente ao ser humano e, como fato, não é remediável (se houvesse solução não seria fato, e sim problema, mas isso já é outra discussão).
Como disse Clarice, viver é incômodo. Mas viver é acima de tudo mágico e a tal da teimosia tem a ver com isso - e assim quem resolve não ser otimista nem pessimista também vai sofrendo as conseqüências. Afinal a realidade contém todas as cores, e cada matiz se revela de modo particular, ofuscando a vista na exuberância florescente ou desafiando o tato na ausência da luz. E a vida é repleta de surpresas boas e desagradáveis, e sobretudo incontroláveis.
Super Marabini - a responsável pelo diálogo que virou post - resumiu brilhantemente essa discussão:
Porque os otimistas, quando da ventania, mudam de lugar.
Os pessimistas maldizem o vento.
E os realistas ajustam as velas.
Escrito por Vivian Makia às 13h59
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